domingo, 18 de fevereiro de 2018

Conversas com minha mãe


Talvez fosse em 2001, quem sabe em 2002, estávamos almoçando num dos restaurantes da PUC de Porto Alegre – minha mãe, minha mulher e eu – e cruzamos com Marshall Berman. Ele vinha caminhando ao lado do bufê fartamente servido (era o restaurante mais sofisticado da PUC) com um prato balançando na mão, vestido com exagerada displicência, os cabelos despenteados, e minha mãe o olhou de cima a baixo. Depois, na mesa, comentou com minha mulher e eu:

– É desse escritor que vocês gostam tanto? Na certa ele escreve melhor do que se veste.

Nós rimos e concordamos com ela. O famoso ensaísta norte-americano realmente compunha uma figura estranhíssima naquele ambiente, mas dissemos que valia a pena ler Tudo que é sólido se desmancha no ar. Minha mãe, no entanto, não se interessou. Ela estava na faixa dos setenta anos, tinha descoberto Machado de Assis, um autor que ela passara a vida inteira achando chato e que, de repente, tornara-se uma das suas leituras prediletas (junto com Eça de Queirós, um amor antigo).

Agora que minha mãe faleceu, meus irmãos e eu dividimos os seus livros (alguns dos tantos livros que ela leu ao longo da vida) e descobri entre eles um pequeno volume de contos de Machado, no qual ela anotou que eu a presenteei depois de um almoço num shopping de Porto Alegre, em 2012.

Mas não lembro o almoço. Não sei se comemos camarão e bebemos chope (um dos nossos cardápios prediletos) ou se comemos galeto e bebemos vinho... Era um shopping onde costumávamos passear, almoçar e, inevitavelmente, bater ponto na sua livraria.

A mãe lia regularmente e gostava de Machado, Eça, Isabel Allende e tantos outros - os autores da Bíblia inclusive. Lia e relia os contos e romances machadianos (preferia os romances), e muitas vezes eles nos serviam de porta de entrada para pensar a “natureza humana” (um termo que ela empregava), os segredos e as sombras que existem em todos nós.

Então eu olho os livros que me couberam na partilha e sinto que continuo vivendo como se minha mãe estivesse comigo... Como se ouvisse ela comentar os trajes de Marshall Berman ou as possíveis artimanhas da machadiana Capitu:

– As mulheres são muito ardilosas, meu filho, te cuida.
Folheio os livros que ela leu com tanta atenção – obras de Machado, Eça, Veríssimo, Josué Guimarães, Assis Brasil, Lígia Fagundes Telles, tantos – e é como se ainda continuássemos conversando, conferindo impressões de leitura, falando da família, de nós mesmos, tecendo essa teia de afetos entre mãe e filho que tanto me alicerça, me fundamenta, e da qual sou eternamente grato.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Assis, Giotto e São Francisco

Em fevereiro do ano passado, visitei a cidade de Assis (Itália) com meus colegas do Campus Magnolie (escola de língua italiana para estrangeiros). Estávamos hospedados em Castelraimondo (distante pouco mais de 70 km da cidade natal de São Francisco), tivemos aula pela manhã e viajamos a tarde. Visita guiada numa tarde de sol e muito frio. O professor falava em italiano, pausadamente, e dava para entender. Um passeio inesquecível, desses que muito professor de História sonha a vida inteira.
São Francisco de Assis é um dos maiores santos da Cristandade e a sua vida e prática espiritual são um marco na história da sensibilidade cristã. Como aponta Armindo Trevisan, seu amor à Natureza e sua devoção à Paixão de Cristo acentuaram uma revolução que estava em curso durante a vida do santo: a da humanização da teologia e da espiritualidade cristãs. Uma “revolução copernicana às avessas”, acentua Trevisan, que obrigava “o sol da reflexão a girar em torno do homem, isto é, da humanidade de Cristo, consequentemente, da humanidade sexuada de sua mãe”. Uma revolução desencadeada pelos santos Anselmo e Bernardo, no século XII, e que São Francisco viveu, poetizou e difundiu.
Entrei na cidade de Assis com a lembrança dessas leituras e, enquanto o meu corpo se movimentava por uma cidade do século XXI (a atual cidade de Assis, preservada/restaurada nos seus traços medievais), os olhos e a imaginação buscavam os sinais do passado. Visitei as basílicas de Santa Clara e de São Francisco nessa “vibe”, à procura de uma possível sintonia com a poderosa tradição inaugurada por esses santos e reinventada pela Igreja e pelos devotos nos últimos 800 anos.
Não se alcança isso numa tarde, é verdade, mas o que se vê, ouve e sente é material para que o passeio continue muito e muito tempo depois.
E foi isso que aconteceu semanas atrás: catei na estante um pequeno livro que comprei na Libreria Internazionnale Francescana e retomei o ponto mais alto desse passeio: a visita ao interior da igreja superior da Basílica de São Francisco. Ali se encontram as 28 pinturas murais de Giotto, intituladas “A vida de São Francisco” e realizadas entre 1296 e 1299. São 28 murais (ou afrescos) que o pequeno livro – Giotto: a lenda franciscana na Basílica de Assis – reproduz e comenta, tanto nos seus aspectos artísticos quanto (principalmente) nos seus aspectos religiosos. Um livro precioso para entender a enorme riqueza desses murais. Obra da juventude de Giotto e marca inicial do processo de ruptura com o convencionalismo bizantino e a inauguração de uma “representação mais vívida da vida”. Aos meus alunos, eu apontava Giotto como pré-renascentista, um artista que ensaiou os primeiros passos de uma nova representação da figura humana, que se configurou no Renascimento Cultural.
Naquela tarde (fevereiro do ano passado), caminhei pela igreja superior da Basílica de São Francisco e parei diante de cada mural. Vistos um a um, em silêncio, foi possível uma sintonia com o material religioso dos murais e a vivência de uma emoção crescente. Quando cheguei ao mural da cena do Monte Alverne – mural nº. 19, no qual o santo tem a visão de Cristo sob a aparência de um Serafim Crucificado e recebe os estigmas da Cruz nas mãos, nos pés e no lado direito das costelas – era como se eu tivesse percorrido um enorme caminho e encontrado uma das matrizes da minha vida. Afinal, guri da década de 1960, tive minha fase de sonhar com os santos e querer imitar suas vidas de martírio. Coisas de quem se criou à sombra da Igreja Católica...
Muito bom poder retornar a isso (à matriz católica) aos 62 anos de idade, e também sintonizar com o menino e adolescente que eu fui. Se perdi a fé religiosa, ganhei humanidade. E ganhei-a nos marcos da tradição cristã e dos seus artistas, nas sendas abertas por São Francisco e Giotto, um de seus artistas inspirados.
Naquela noite, quando voltei com meus colegas ao Campus Magnolie, não lembro que vinho bebi (provavelmente um primitivo), mas com o copo entre as mãos sei que rezei como São Francisco: “Irmão corpo, precisas de uma porção justa de alimento e bebida. Irmão corpo, que bem precisas de todo apreço”.

Obs.: o livro citado de Armindo Trevisan é O rosto de Cristo: a formação do imaginário e da arte cristã (Porto Alegre: AGE, 2003); o livro sobre os murais é de Bruno Dozzini, Giotto: a lenda franciscana na Basílica de Assis (Assisi: Editrice Minerva, 2011). A Libreria Internazionnale Franciscana se localiza encontra na Piazza Porziuncula (Assis) e tem livros sobre a temática franciscana para todos os gostos, idades e nas mais diversas línguas.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Catherine Millet e o sexo selvagem

Catherine Millet foi uma das signatárias do manifesto das feministas francesas realizado em protesto ao feminismo norte-americano, especialmente aquele protagonizado pelas atrizes vestidas de preto na última cerimônia do Globo de Ouro, em janeiro desse ano. Catherine Millet, 69 anos, é uma sofisticada crítica de arte e também romancista. Em seu romance autobiográfico, A vida sexual de Catherine M. (Ediouro, 2002, 216 p.), sua personagem principal encarna de forma contundente essa mulher que o manifesto das francesas delineia: uma mulher que não precisa de proteção, que entende o jogo sexual como selvagem e agressivo, não se melindra com isso e vai à luta.


No manifesto das francesas, o feminismo norte-americano é visto como “uma onda purificadora puritana”, que retoma o entendimento tradicional da mulher como “mera criança” que necessitar de proteção contra as investidas inconvenientes dos homens. Para as francesas, “as mulheres estão suficientemente conscientes de que o desejo sexual é por natureza selvagem e agressivo”, sabem distinguir uma investida desastrada de um ataque sexual e são capazes de se defenderem. Ou, pelo menos, as francesas apostam nisso. Em certo sentido, são otimistas.
Quando li os termos do manifesto, lembrei do romance autobiográfico de Catherine Millet e procurei-o na estante. Publicado em 2001, na França, o livro logo tornou-se um sucesso de venda e foi traduzido em vários países, inclusive no Brasil. Na época, A vida sexual de Catherine M. foi saudado como o relato sincero, surpreendente pela originalidade, de uma mulher sobre a inserção feminina no mundo dos jogos eróticos. Uma inserção nos moldes da tradição libertina: a da busca da completa liberdade sexual, sem nenhum sentimentalismo, sem nenhuma amarra moral. Uma inserção politicamente incorreta, cujos principais objetivos são o prazer e a liberdade. Um prazer conquistado solitariamente, a dois, em grupo, com o sexo oposto, com o mesmo sexo, com quem for e em qualquer circunstância. Principalmente em qualquer lugar e momento, pois isso torna “mais abrangente” o sentimento de liberdade. Tudo vale para a conquista “do Graal sexual”, endossa a personagem central do romance, Catherine M.
 Aparentemente um romance pornográfico, devido às descrições de práticas sexuais de forma crua, mas somente o necessário para dar um sabor bandalho à narrativa libertina. Logo fica claro que a personagem Catherine M. está refletindo sobre a sua trajetória sexual, sua personalidade sexual, sua inserção peculiar no universo dos jogos eróticos – e não necessária e exclusivamente excitar o leitor, como é o caso do texto pornográfico. Uma narrativa que tem muitos pontos em comum com a vida da autora, mas que, nem por isso, deixa de ser ficcional. Muitas vezes provocação pura, como o reconhecimento da selvageria e agressão que o desejo sexual pode alcançar e o gozo completo com essas dimensões da sexualidade. Provocação para a maioria dos nós, homens ou mulheres, que (pelo menos da boca pra fora) quer se comportar de forma politicamente correta.
Não sei até que ponto Catherine Millet, a autora, endossa as posições libertinas da sua personagem. Aparentemente, pelas declarações da autora na imprensa, há muita proximidade de ideias e Catherine Millet insiste provocações semelhantes as que se encontra no romance. Mas as “bandeiras de luta” de Catherine M. (o do completo usufruto do sexo e da liberdade) não se harmonizam com qualquer feminismo que se constitui em movimento social e busca um novo regramento para as relações entre os sexos (muito menos com o feminismo das atrizes vestidas de preto). Nem a personagem se propõe a isso. Nem a autora. Apenas se aproximam, se assemelham, na defesa do prazer sexual e da liberdade.
Catherine M. é personagem de um romance libertino escrito na primeira pessoa e narra de forma reflexiva (ensaística, como indica Vargas Llosa) sua inserção individual no mundo dos jogos eróticos. Uma personagem – construída como projeção autobiográfica da autora – que encena a fantasia e a realidade vividas por sua criadora. Uma personagem feminina deliciosamente livre e independente, e, por isso mesmo, também assustadora. Se lemos a sua narrativa como representativa da nova configuração do feminino, as mulheres – ou pelo menos algumas mulheres – não precisam de proteção em relação às investidas masculinas, mesmo que sejam selvagens e agressivas.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

A história do mundo a partir de objetos

Para quem gosta de História e museu, A história do mundo em 100 objetos, de Neil MacGregor (Editora Intrínseca, 2013), é um livro fascinante. O autor é diretor do Museu Britânico e a obra consiste num calhamaço de 760 páginas, com fotos e comentários de cem peças do museu, com o propósito de narrar a história da humanidade desde o Paleolítico até o ano de 2010. Com uma seleção de peças museológicas preciosas, o autor demonstra que objetos são tão reveladores da História como são as narrativas escritas – e, em alguns casos, até mais esclarecedoras. Através de objetos – como um tambor sudanês e um escudo australiano (peças que o autor escolhe para contar a sua “história das civilizações”) – personagens anônimos que não citados em texto algum se fazem presentes nos relatos históricos.


O Museu Britânico tem um acervo extraordinário e entre as peças escolhidas para esse livro encontram-se o famoso Estandarte de Ur (um mosaico funerário), uma estátua de granito de Ramsés II, um relevo de mármore do Partenon, a Pedra da Roseta, uma peça cerimonial maia do jogo de pelota, uma cabeça de pedra de Buda (do templo de Borobodur, em Java) e assim por diante. A partir de objetos como esses, Neil MacGregor descortina uma “história das civilizações” – articulando civilizações, sociedades e culturas da África, Ásia, Europa e Américas – vista a partir de um dos seus centros irradiadores, a Grã-Bretanha.
Para alguns, a narrativa soará fortemente eurocêntrica, mas a abordagem é acompanhada por um esforço tão sincero e inteligente do autor e sua equipe no sentido de integrar as diferentes civilizações, sociedades e culturas numa história global – uma “história das civilizações”, como o autor se refere – que a perspectiva europeizante perde a relevância. Na história proposta pelo autor, as diferentes civilizações – desde o início dos tempos – interagem umas com as outras por meio do comércio e até mesmo por guerras de conquista e acabam construindo um amálgama comum.
O autor não ignora as mazelas do colonialismo e imperialismo europeus (conforme se lê nas abordagens do tambor sudanês e escudo australiano citados acima, “capturados” por agentes do Império Britânico em operação no Sudão e Austrália, marechal Horatio Kitchner e capitão James Cook respectivamente), mas prevalece o entendimento de que existe uma “família humana”. Para o autor, essa “família humana” não é uma metáfora vazia e, sim, formada por “toda a humanidade [a qual] tem as mesmas necessidades e preocupações, medos e esperanças”.
Se o leitor sintonizar com essa abordagem, a leitura será enriquecedora e saborosa. Afinal, cada peça escolhida encerra diversas camadas de histórias e descortina aspectos variados da história da humanidade. A Pedra da Roseta tanto é um documento burocrático da dinastia ptolemaica (grega) que dominava o Egito no século II a.C., quanto uma peça de disputa entre franceses e ingleses durante as Guerras Napoleônicos, quanto o documento fundamental para a descoberta da escrita hieroglífica. E a escultura de Ramsés II tanto é um objeto do culto religioso do Egito dos faraós quanto a peça que revelou aos europeus, no início do século XIX, que a grande arte não iniciara na Grécia, que outras civilizações existiram antes, tão criativas quanto os antigos helenos.
Como se vê, uma leitura fascinante – a nos convidar a conhecer o mundo, suas diferentes facetas (civilizações, sociedades e culturas) e, quem sabe, a também a cruzar o oceano e percorrer as galerias do Museu Britânico.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Os muros da cidade são um campo de batalha

O mundo do grafite se tornou tema de romance policial em O sniper paciente, de Arturo Pérez-Reverte (Editora Record, 2017, 222 p.). Um mundo que o romancista explora tanto nas suas possibilidades de intriga policial (possibilidades abertas pela preferência dos grafiteiros pelas ações ilegais) quanto pelas discussões artísticas e éticas que provoca no campo cultural. Como diz uma personagem do livro (Alejandra Varela, doutora em arte), “o grafite é o ramo artístico ou vandálico [...] da cultura do hip-hop” – uma tendência artística surgida no final dos anos 60, nos Estados Unidos, e com larga difusão na Europa (em especial na Espanha, onde inicia o romance).


Em 2012, uma especialista em arte – Alejandra Varela, 34 anos, lésbica – é contratada por um editor de livros de luxo para entrar em contato com um grafiteiro que se mantem sob anonimato. O apelido do artista procurado é Sniper e tanto o editor quanto a especialista pouco sabem a respeito dele, mas conhecem e admiram sua obra, seja pelos aspectos artísticos, seja pelos mercadológicos. O projeto do editor é fazer um livro-catálogo das obras de Sniper, realizar exposições no Tate Modern (Londres) e no MoMA (Nova Iorque), articuladas com galeristas já em contato com investidores em obras de arte. Em resumo, o editor planeja pôr em funcionamento uma prática habitual do sistema de arte – fazer o cartaz de um artista plástico com exposições em grandes museus e, na sequência, faturar com a venda das suas obras – e a doutora em arte aparentemente aceita o jogo.
O editor paga bem e Alexandra Varela (a especialista em arte) realiza a sua busca por Sniper hospedando-se em hotéis de diárias de 300 euros a partir de Madri, em Lisboa, Verona, Roma e Nápoles. Um circuito por locais sofisticados – no primeiro capítulo, o encontro do editor e a doutora acontece no Museu Reina Sofia, em Madri, tendo ao fundo uma escultura de Calder –, intercalado com cenas noturnas nas mesmas cidades, com grafiteiros de mochilas cheias de latas de spray colocando em prática suas ações artísticas e/ou vandálicas em paredes de prédios, túneis de metrô e em vagões de trem. Como disse o amigo que me emprestou o livro (Ronaldo Lippold), “a coisa é escrita de tal jeito que vai virar filme”.
Sniper, o grafiteiro procurado, encarna o artista guerrilheiro, contrário a arte que se envolve nas “perversões do mercado” e entende o seu trabalho como “ácido imaginário” jogado na cara dos contentes – uma arte que só é válida enquanto se mantiver na ilegalidade. “Se é legal, não é grafite”, ele proclama, desenhando os muros da cidade moderna (“envenenada” pela poluição dos carros, das fábricas, e cartazes de propaganda) como verdadeiro campo de batalha.
Sniper também opera nas redes sociais e provoca os grafiteiros que o admiram (geralmente adolescentes – Sniper tem 40 anos) a ações ousadas e perigosas que muitas vezes resultam em acidentes mortais. Os pais e as amantes dos jovens grafiteiros mortos não esquecem as provocações de Sniper e isso dá um tempero a mais ao romance. Isto é, não são apenas um editor de livros de luxo e uma especialista em arte que querem entrar em contato com o grafiteiro anônimo... Divertimento garantido.


Obs.: Entre as ideias de Sniper para provocar os grafiteiros europeus estava a de “pintar o costado desse transatlântico que encalhou na costa da Itália”. Como esse encalhe famoso (o do Costa Concordia) ocorreu em janeiro de 2012 e a publicação do romance se deu em 2013, pode-se datar o tempo da narrativa entre essas duas datas.

sábado, 16 de dezembro de 2017

As famílias são eternas

A Companhia das Letras acaba de lançar o último romance de Leonardo Brasiliense, intitulado Roupas sujas. Uma “saga familiar” (como está indicado na contracapa) ambientada na zona colonial italiana do Rio Grande do Sul. O romance anterior de Leonardo (publicado pela Editora Saraiva) também é ambientado na mesma região: Decapitados. Mas as duas obras poderiam se passar no sertão pernambucano ou no litoral paulista que não faria muita diferença. Afinal, “as famílias são eternas”, diz um dos quatros narradores desse último livro. Famílias são como uma equação e funcionam de modo muito semelhante em qualquer lugar: os elementos da operação são os mesmos e infinitas as suas variações. 


Num caso – em Decapitados – é a cabeça do Pai da comunidade que sumiu (a cabeça do pai, já defunto, colocada como relíquia numa capela). No outro caso – nesse último romance, Roupas sujas – é a Mãe o elemento central. A Mãe morre e deixa a família (o marido e sete filhos) obrigados a se reorganizarem. Pai, Mãe e filhos são peças de um jogo infinito, eterno, e haja talento para lidar com isso. Como o talento é escasso, sobra jogadas infelizes e é com esse material que Leonardo Brasiliense opera para deleite dos seus leitores.
O resultado são essas Roupas sujas familiares, compostas por quatro narradores: três deles membros dessa família infeliz que perde a Mãe num parto mal sucedido  (morre a Mãe, sobrevive a criança) e um quarto narrador não identificável, mas nem por isso menos importante para o andamento e desfecho da narrativa. A Mãe morre num parto sem assistência médica (a Medicina era luxo na região colonial italiana, na década de 1970) e mais de vinte anos depois um filho romancista reconstitui o drama familiar decorrente dessa morte (a primeira parte do romance, a mais longa). Uma das filhas (professora) escreve cartas ao irmão escritor (a segunda parte do romance, menos extensa que o anterior), tendo como mote o romance escrito pelo irmão a respeito dos desdobramentos da morte da Mãe. E um outro filho (aquele que nasceu no parto em que a Mãe morreu) escreve um sucinto diário, às vésperas de ser ordenado padre, relatando seu comovente drama de culpa e sacrifício.
Famílias exigem sacrifícios para se perpetuarem e possibilitarem a continuidade da vida e Pedro cumpre esse ritual, se oferecendo em holocausto, isto é, ao sacerdócio. Famílias exigem corpos e mentes ardendo em sofrimento, especialmente nas dores da culpa. Ou, pelo menos, tem sido assim que a maioria de nós tem operado e é dentro dessa longa tradição de dor e de culpa que Leonardo Brasiliense arma esse magnífico e curto romance. Uma peça de dor e de culpa, muito próxima do compasso de uma tragédia. 
Mas o último narrador – o narrador indefinido, que intervém na narrativa por meio de notas de rodapé – indica que a coisa poderia ser contada de outra maneira, próxima ao ritmo de um samba, quem sabe. Afinal, “as famílias são eternas”, ele afirma, e isso as torna “muito difícil de compreender”. Talvez nem seja possível, eu acrescentaria, mas nem por isso deixamos de empreender a dolorosa tarefa de mergulhar e procurar algum sentido nas roupas sujas dos dramas familiares.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

D. João V e Madre Paula

D. João V, rei de Portugal entre 1706 e 1750, não poupava dinheiro quando se tratava das coisas da Igreja. Pensei nisso sentado num dos bancos da igreja de São Roque, em Lisboa, assistindo a um concerto de música sacra com composições dos séculos XVII e XX. Um espetáculo sóbrio, comparado aos que o rei D. João patrocinou naquele mesmo local.
Interior da Igreja de São Roque. Capelas laterais.
Na época de D. João V, a igreja de São Roque pertencia aos jesuítas e o rei mandou construir no seu interior uma capela luxuosíssima dedicada a São João Batista. A capela foi feita na Itália, “o maior viveiro das artes”, mas com orientações precisas do rei e do arquiteto-ourives da corte portuguesa (um detalhe importante para entender a pouca sensualidade da obra e a preponderância de um barroco mais clássico, menos dado ao gozo dos sentidos como era próprio do barroco italiano do período). Depois de ser sagrada pelo papa, a capela foi desmontada, enviada a Portugal em três naus e remontada onde hoje se encontra. Assisti ao concerto sentado próximo a Capela de São João Batista e usufrui um e outro espetáculo.
D. João governou “à sombra do ouro que chegava do Brasil” (uma média de oito toneladas ao ano) e não sabia o que era controlar gastos. Além dessa capela mandou construir o Convento de Mafra e a Biblioteca Joanina (na Universidade de Coimbra), isso para ficar em apenas mais dois exemplos de realizações grandiosas do seu reinado. Considerado o Rei Sol da monarquia portuguesa, esse título dá conta do investimento em ostentação que o soberano fazia.
Objetos litúrgicos da Capela de S. João Batista, expostos no Museu de São Roque.
Saí satisfeito do concerto, naquela noite, e desci a Rua da Misericórdia em direção ao Chiado. No caminho lembrei de Madre Paula, “a carne gloriosa”, “a flor de claustro perfumada de incenso”, que encantou a vida do rei durante treze anos. Em relação a ela, D. João V também não poupou dinheiro algum. Quando a conheceu, ela era freira no Convento de Odivelas e amante de um conde. O rei a negociou com o conde e consta que ela não reclamou. Pelo contrário, arrogante, passou a exercer até com crueldade o poder que a condição de preferida do rei lhe dava. D. João mandou construiu aposentos luxuosos para ela (no convento), com muito ouro, prata, e nove criados para servi-la. Madre Paula usufruiu esses benefícios mesmo quando deixou de ser amante do rei e, provavelmente, utilizou até o fim da vida a lendária banheira de prata maciça (100 kg de prata) presenteada pelo soberano.
Afirmam os historiadores que a colaboração entre a Coroa e a Igreja atingiu picos elevados durante o reinado de D. João V. O rei não poupava esforços para engrandecê-la, tinha gosto pelas cerimônias litúrgicas espetacularizadas e as utilizava para afirmação do seu poder. Do mesmo modo, sabia usufruir com requintes “as flores adocicadas” que o claustro é capaz de fornecer. Além de Madre Paula, sabe-se da existência de outra freira do mesmo convento que foi amante do rei: Madalena de Miranda. Com ambas o rei teve filhos, os quais foram reconhecidos após sua morte. Um deles se tornou arcebispo de Braga; o outro, inquisidor-geral do Reino. Coisas da Igreja e da monarquia portuguesa que um reles turista não compreende muito bem, mas, nem por isso, deixa de usufruir com prazer.