domingo, 19 de novembro de 2017

Turistando em Lisboa

Ando turistando em Lisboa. E uma das minhas referências é o guia turístico e literário do jornalista João Correia Filho, Lisboa em Pessoa (Editora Leya, 2011). Baseado em roteiro escrito por Fernando Pessoa, o jornalista recriou os itinerários propostos pelo poeta e tento seguir esses roteiros. Muitas indicações sobre livros e autores. Mas nem sempre acerto.
Logo que cheguei, saí à cata do local onde nasceu Fernando Pessoa – no entorno do Teatro de São Carlos, no Chiado – e demorei a encontrar. Precisei do auxílio de um nativo (no caso, uma atenciosa funcionária de uma loja). Ela me falou de uma estátua – um homem com um livro no lugar da cabeça (uma estátua conhecida) – e encontrei o prédio. Bem na frente do teatro. Ali o poeta nasceu e viveu os primeiros anos (no quarto andar). Imaginei uma infância enfeitiçada pelo som de concertos e óperas vindos do teatro... Anos atrás, jantei no restaurante do teatro e lembrei que o poeta nascera por ali. Era uma noite muito fria.
Prédio onde nasceu Fernando Pessoa - no quarto andar.

Hoje, mais uma vez andei pelo Chiado atrás de outra indicação de João Correia Filho: o antigo Grand Hotel Central, local de uma das cenas d’Os Maias, de Eça de Queirós. Foi nesse hotel que Carlos da Maia viu pela primeira vez Maria Eduarda (que ele não sabia ser sua irmã). Ela desceu de um coupé na frente do hotel e passou diante dele “com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atrás de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de oiro e um aroma no ar”. Carlos da Maia se apaixonou.
No mapa do livro de João Correia Filho, o local do hotel está marcado na Rua do Alecrim, mas não fica claro o local preciso e não houve jeito de encontrá-lo. Hoje procurei mais uma vez e acertei. Tinha entrado na Livraria Sá da Costa (na Rua Garret), folheado uma geografia queirosiana e visto uma foto antiga do hotel. Depois desci novamente a Rua do Alecrim e lá estava. Atualmente é um hotel boutique. Entrei no prédio para confirmar a informação, conversei com a funcionária do balcão – uma linda moça –, mas ela pareceu não saber quem era Eça de Queirós. Gentilíssima, ela disse que aquele prédio bem poderia ter abrigado o hotel a que eu me referia e ficou sorrindo para mim. Acho que estávamos em mundos diferentes.
Literatura demais, eu pensei. Literatura demais para uma cabeça tão jovem. Essa guria deve ter outras referências culturais, um mundo que nem imagino. Agradeci a atenção e fui embora. Fui dar uma banda nas margens do Tejo.
Antigo Grand Hotel Central.
Ando turistando em Lisboa. Já subi e desci a Rua do Alecrim diversas vezes e sempre fotografo a estátua de Eça de Queirós. Guri do curso colegial, os contos de Eça faziam parte das minhas leituras e releituras. Tenho um exemplar todo sublinhado.
Nos anos 80, fiz um curso de criação literária (na PUC de Porto Alegre) e o professor indicou Os Maias como leitura imprescindível. Levei anos para conseguir a calma necessária para a leitura completa dos dois volumes. Um livro fascinante – que rendeu uma minissérie da Globo igualmente admirável, com uma Maria Eduarda lindíssima (interpreta por Ana Paula Arósio) e uma Maria Monforte (a mãe de Carlos e Maria Eduarda) igualmente inesquecível (interpretada por Marília Pera).
Ando turistando em Lisboa. Diante do Tejo, na tarde desse domingo, tive a impressão de ter visto uma deusa mirando as águas do rio... mas foi só impressão. Logo segui em frente, em direção ao Mercado da Ribeira (atual Mercado Time Out), para beber um cálice de vinho.

sábado, 11 de novembro de 2017

Donjuanismo, poesia & tragédia

Na noite de 23 de abril de 1927, na mal iluminada Rua Ernesto Beck, numa cidade do interior do Rio Grande do Sul – Santa Maria –, dois homens armados se defrontaram por causa de uma mulher. Os dois homens eram Pedro da Silva Beltrão, 34 anos, comerciante, e Francisco Ricardo, 31, juiz e poeta.  A mulher, dona Ana Calderan Beltrão, 29, era casada com Pedro.
O marido seguiu a esposa pela rua e depois encontrou-a com o poeta, conversando na calçada. O marido já sabia que o poeta Francisco andava fazendo “gracejos” a sua esposa e estava preparado. Ao aproximar-se dos dois, gritou “filho da puta” e sacou a arma. O poeta também utilizou o seu revólver e oito tiros foram disparados. Nenhum dos dois homens sobreviveu. O sedutor morreu 24 horas depois, o marido resistiu quatro dias. Dona Ana, por sua vez, não teve ferimento.
No dia do enterro de Pedro Beltrão, a imprensa local louvou o esposo: “a virilidade da nossa raça não está de todo desvirtuada, pois ainda há homens que preferem perder a vida, a conservá-la [...] manchada”. Dias depois, um outro jornal se referia ao poeta como “um juiz Don Juan [...] useiro e vezeiro nos desaforos [e] ousadias”.
Do ponto de vista da História, mais um episódio a respeito das rigorosas regras sociais que existiam para os casos de “ameaça à honra familiar”. Matar era uma saída elogiada para os homens que se sentiam “ultrajados”. Matar para viver. 


 Sergio Faraco e Valter Noal Filho trazem à tona esse episódio santa-mariense e o esclarecem à luz do inquérito policial e das notícias de jornais da época, assim como de um artigo (de membro da Academia Rio-Grandense de Letras) e de depoimentos de memorialistas. E ainda acrescentam ao livro uma coletânea de poemas de Francisco Ricardo, mais fotos do período.
As motivações e o confronto dos dois homens ficam esclarecidos, mas quanto a dona Ana o enigma permanece. Como indicam os autores: “O que Rosa fazia ali [na Rua Ernesto Beck], naquele horário [20h30min] e numa rua escura, acompanhada de um homem cuja fama era por todos conhecida e verberada?” Um silêncio completo da voz feminina – que, ao que tudo indica, não deixou registro.
Mas se faltam referências ao protagonismo feminino, não se pode dizer o mesmo das figuras masculinas, como demonstra soneto abaixo, de Francisco Ricardo, representativo da sua disposição romântica. O poema fora publicado em 1927 e era “dedicado a uma misteriosa mulher de Santa Maria”:
“Ela dirá que tudo foi brinquedo... / um romance sem prólogo nem fim... / romance sem palavras... sem segredo... / Eu direi que nem tudo foi assim... // (...) // Direi que a sua história é bem contada: Era uma vez uma alta Flor-amada / era tão alta que ninguém colheu... // E por ser Flor de Torre, altiva e quieta, / dizem que foi colhida por um poeta / e esse alto poeta... dizem que fui eu!
O poeta Francisco Ricardo tinha 1,85 metro de altura, era conhecido pelo seu interesse por mulheres casadas e costumava trazer consigo um revólver “espanhol”, calibre 38.

sábado, 4 de novembro de 2017

D. Afonso e o Mar Português

Em agosto de 1471, o rei português D. Afonso V conquistou a cidade de Arzila, na costa do Marrocos. Foi um golpe de sorte. Não era a primeira vez que os portugueses faziam a investida. A expansão lusitana no litoral atlântico da África vinha desde 1415, com a conquista de Ceuta, e Arzila estava na mira. Em 1471, o soberano de Arzila partiu para uma guerra no interior da África (cercar a cidade de Fez), deixou sua cidadela militarmente enfraquecida e os portugueses aproveitaram. Em menos de quatro dias, cercaram e tomaram Arzila, provocando enorme quantidade de mortos. Ao final dessa investida, o rei português consagrou a mesquita moura a Nossa Senhora da Anunciação, assegurando o domínio do território.
Na sequência, assustados com a fama de “terríveis piratas” que os portugueses vinham adquirindo no norte da África (mais uma vez comprovada na conquista de Arzila), os habitantes de Tanger abandonaram a cidade e as tropas do rei D. Afonso tomaram o local. Ponto para a Cristandade. D. Afonso V tinha espírito cruzadístico e dava à expansão ultramarina lusitana um caráter religioso – sem descuidar de garantir aos nobres a pilhagem das riquezas assim como assegurar aos mercadores lusos o controle das rotas comerciais africanas. Era mais um ponto na formação do Mar Português – séculos mais tarde cantado por Fernando Pessoa em Mensagem: “Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal!”
Em homenagem a conquista de Arzila e Tanger, D. Afonso encomendou às oficinas de tecelagem flamengas quatro enormes tapetes, representando o desembarque, o cerco e o assalto a Arzila, e, por último, a tomada de Tanger. Tapetes de 4 metros de altura por 10 de comprimento, que conheci no Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães (norte de Portugal). Na verdade, achava que tinha conhecido. Mas quando estive lá, em 2012, o que vi foram réplicas desses tapetes (conhecidos como Tapeçaria de Pastrana).
Sala do Paço dos Duques de Bragança com réplica de um dos tapetes.
 Escrevo sobre isso porque ando lendo sobre a expansão ultramarina portuguesa – a formação do Mar Português – e me deparei com uma referência aos famosos tapetes. Uma tapeçaria grandiosa, com muitas figuras, cores e símbolos, e recordei a impressão que tive... Uma dessas boas e inesquecíveis experiências de turista: fiquei fascinado com o modo como a grandeza lusitana é tratada e reverenciada, lembrei ao mesmo tempo as atrocidades cometidas por D. Afonso e seus soldados... e engasguei. Coisa de professor de História, talvez. Não fui capaz de passar “além da dor” que toda a humana lida encerra – especialmente a dor, a violência e as lágrimas das nações que ultrapassaram o Cabo Bojador – e fiquei com as imagens das tomadas de Arzila e Tanger atravessadas na garganta. 
Tão cedo não irei novamente ao Paço dos Duques de Bragança, mas na próxima viagem a Lisboa já coloquei no roteiro os museus que exibem material do expansionismo lusitano na África, Índia e China (e, na certa, também com alguma coisa de São Francisco Xavier, o grande missionário do Oriente). O material do saque, da pilhagem e do comércio (coisas que se confundiam nas empreitadas portuguesas – junto com a conquista religiosa) e tentarei compreender melhor as coisas. Ou não me engasgar, ao menos. Aceitar, enfim, o horror e a grandeza da aventura humana, D. Afonso, as atrocidades lusitanas e a formação do Mar Português.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Velha Roma Legionária

Quando criança, fui fisgado pela História de Roma: Rômulo e Remo, os irmãos salvos e amamentados pela loba; os irmãos Horácio, guerreiros implacáveis contra os campeões de Alba Longa; o general Cincinato, que não queria cargo nem fortuna, apenas servir a sua cidade. Fui pego por essas tramas heroicas, que aprendi lendo histórias em quadrinhos, assistindo filmes na matiné e ouvindo meu pai confirmá-las, dar detalhes, e me conduzir a leitura de enciclopédias.
Um tema que não tem fim, que até hoje me atrai. Um tanto porque remete ao meu imaginário juvenil, outro tanto porque constitui um dos lastros da Civilização Ocidental. A bibliografia a respeito é extensa e outro dia catei na estante Grandeza e decadência dos Romanos, de Montesquieu (Editora Paumape, 1995, 164 p.). Outras edições brasileiras traduzem o título de forma literal – Considerações sobre as causas da grandeza dos Romanos e da sua decadência – e, dessa maneira, indicam melhor o tipo de livro que é. O autor não faz um livro de História convencional, mas utiliza as histórias narradas por Tito Lívio, Políbio, Plutarco e outros como matéria-prima para as suas reflexões a respeito da dinâmica das sociedades e de seus governos. Um livro que pressupõe alguma intimidade com a vida política e militar de Roma, desde a sua fundação até “as misérias” do Império Romano do Oriente. E, aspecto curioso para um leitor contemporâneo, uma reflexão que aborda o mundo romano como se fosse semelhante à sociedade europeia do tempo do autor.



Quando publicou esse livro (1734), o barão de Montesquieu era um intelectual de 45 anos que procurava entender como “um governo livre” podia se sustentar. Para ele, a Roma Republicana era bem um modelo para isso, pois “sua constituição se mostr[ava] tal, pelo espírito do povo, a força do Senado ou a autoridade de alguns magistrados, que todo poder sempre pod[ia] ser corrigido”. Preocupado com o exercício do poder, temeroso dos excessos de autoridade e dos desequilíbrios da ordem, Montesquieu estava atento às condições de uma sociedade manter o seu rumo, alterar suas leis (quando necessário) e corrigir os costumes.
Nesse sentido, apostava na aristocracia como elemento fundamental para manutenção da ordem (os “sagazes aristocratas” com assento no Senado), reconhecia a função do povo (para aclamar ou não as autoridades, mas não muito mais do que isso) assim como o papel dos magistrados (com destaque para os censores) continuamente substituídos nos cargos. Mas, principalmente, valorizava “o espírito geral” da sociedade – no caso dos romanos, centrado na disciplina e na austeridade, e muito distante de outros povos “amolentados por riquezas e luxos”.
  Os romanos dos primeiros séculos (até o estabelecimento do Império, com Augusto) eram “apaixonados” pela guerra e não esmoreciam na formação dos seus soldados. Para exemplificar essa disciplina militar, o autor se refere por duas vezes a um episódio emblemático do mundo romano (daqueles exaltados por Tito Lívio), ocorrido na guerra contra os samnitas (no século IV a.C.). Nessa guerra, o general Mânlio Torquato proibiu os legionários de deixarem suas fileiras para combates individuais com os adversários. O filho do general, no entanto, desobedeceu a ordem (deixou as fileiras para uma luta singular) e, quando regressou vitorioso, o comandante (seu pai) mandou estrangulá-lo. Sem dó nem piedade, o general exerceu a autoridade necessária para a manutenção da “robusta” disciplina, elemento essencial da expansão territorial, da manutenção das fronteiras e da grandeza de Roma.
Como se vê, são virtudes masculinas as que estão no eixo da construção civilizatória, as quais se perderam quando a sociedade e o Estado se expandiram além da medida, isto é, dos limites da cidade-estado antiga. Nenhuma referência ao mundo feminino, a não ser como algo a ser evitado pelos homens quando no trato da guerra, da política e da administração. Vários nomes de senadores, magistrados e generais são citados (geralmente de forma elogiosa) e apenas duas mulheres: Cleópatra e Teodora. Cleópatra, que “fugiu [na batalha de Ácio] e arrastou Antônio consigo”, e a imperatriz Teodora (esposa de Justiniano), que se insinuava nos negócios do marido com as “paixões e fantasias de seu sexo”.
Reflexões que deitaram raízes no entendimento que temos do mundo romano – mesmo que a historiografia contemporânea não endosse mais as conclusões ali formuladas. Reflexões que estão entranhadas no modo como a Civilização Ocidental se construiu: exaltação dos valores guerreiros, dos costumes austeros, da obediência aos “melhores” (a aristocracia), assim como desconfiança em relação ao povo, constantemente oscilante “entre os extremos do ímpeto e os extremos da fraqueza”.
Velha Roma Legionária, na qual era passível de admiração os “generais condenar[em] à morte seus próprios filhos”, quando eles agiam sem levar em conta as ordens superiores.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Os Beatles e o comunismo internacional

Cursei o ginásio em colégio católico, no final dos anos 60. Vivia em Porto Alegre naquele tempo. Um dia, o Irmão José, nosso professor de inglês, viu meus colegas e eu com um disco dos Beatles – o “Sgt. Pepper’s” – e veio nos fazer uma preleção a respeito das “mensagens subliminares” daquelas canções. Estávamos no pátio da escola, aguardando o sino tocar para o início das aulas, e o professor nos deixou de queixo caído.

Segundo ele, os rapazes de Liverpool tinham intenções subversivas em relação aos valores da Civilização Ocidental e, do ponto de vista católico, não eram recomendáveis. O professor não iria confiscar o disco, mas era melhor recolher o material e só nos entregar no final das aulas.
Eu ganhara o disco no último Natal, presente do pai (acho que aquele long-play era o meu, não recordo direito), e não entendera aquela conversa quanto aos Beatles estarem mancomunados com o comunismo internacional e favorecerem a dissolução dos valores cristãos, em especial aqueles relativos à ordem familiar: a autoridade paterna, a castidade dos jovens e coisas assim.
Foi uma conversa que nos deixou de cabelos em pé, a nós, ginasianos que “amavam os Beatles e os Rolling Stones”, mas que não deixavam de ir à missa aos domingos. Nós nos dividíamos quanto a opinião em relação ao “Sgt. Pepper’s”, diferente de tudo quanto escutáramos dos Beatles até então, mas estávamos gostando. Ainda não usávamos a expressão “baita som”, mas devia ser mais ou menos isso que falávamos.
Lembrei disso outro dia, folheando um livro num sebo de Porto Alegre, no qual havia referência a uma publicação norte-americana, de 1964, intitulada Comunismo, hipnotismo e Os Beatles, do pastor David Nobel. Talvez o Irmão José tivesse lido o livro.
Segundo o pastor David Nobel, as canções dos rapazes de Liverpool continham “mensagens subliminares” e eles tinham sido treinados em Moscou com técnicas de hipnotismo... Se a conversa do Irmão José não era essa, era parecida: os Beatles como prováveis agentes do comunismo internacional, atuando no sentido de entorpecer a mente dos jovens e dissuadi-los do bom caminho.
Hoje, isso me parece absurdo, mas era comum naquele final dos anos 60 ver subversão e/ou intenções malévolas no campo das artes. Pais e professores costumavam divagar com essas coisas, mas a maioria de nós (os jovens) nem sempre caímos na conversa.
Coisas daqueles tempos, insisto em afirmar. Mas a atual discussão sobre o que acontece no mundo das artes – a exposição queer no Santander Cultural, a performance com nudez no Museu de Arte Moderna paulista – me indicam que provavelmente estou enganado.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Lisboa turística (2)

Li no Lisboa em Pessoa: guia turístico e literário da capital portuguesa, de João Correia Filho, que na Torre de Belém se encontra uma cabeça de rinoceronte esculpida. Ela é visível numa das salas da Torre, a Sala do Governador. É a cabeça do rinoceronte que serviu de modelo para a famosa gravura de Albert Dürer, segundo o autor. O animal foi um presente que Afonso de Albuquerque ganhou de um sultão do Oriente e que chegou a Lisboa em 1515. Um alemão que estava em Portugal viu o animal, desenhou o bicho e enviou a ilustração a um amigo de Dürer. Foi a partir disso que o artista realizou a sua gravura.


Eu conhecia outra versão, com elementos mais rocambolescos. O rinoceronte foi enviado pelo rei Dom Manuel para o papa, em Roma. O navio que levava o animal naufragou, o bicho morreu e seus restos chegaram até a praia. Dürer estava na Itália, viu a carcaça do animal e, a partir daí, recriou o bicho. Tenho lembrança de ter lido isso num livro de John dos Passos sobre as navegações portuguesas, com longas transcrições dos cronistas da época, mas não tenho certeza.[i] Só espero não estar inventando.
Dei uma olhada no Google e constatei que ao menos as informações a respeito do rei de Portugal enviar o rinoceronte ao papa, o navio naufragar e o rinoceronte morrer afogado são verdadeiras. O resto, quando ao modo como Albert Dürer tomou conhecimento do animal, há controvérsias. Seja como for, em nenhuma das versões Dürer bateu os olhos no rinoceronte vivo. Coisas que a gente não soluciona com guias turísticos, mas se diverte mesmo assim.
Quando estive na Torre de Belém, não visitei a Sala do Governador. Havia um grupo de adolescentes portugueses visitando o local, eles faziam uma bagunça enorme nas estreitas escadarias da Torre e me restringi ao terraço. Depois desci ao calabouço, que estava praticamente vazio, e fiquei por lá. São muito bonitas as aberturas para os canhões e a maravilhosa vista do Tejo. Fiquei me imaginando um vigia do tempo das caravelas...

Neste dia, quando sai da Torre, havia muitas crianças de escola, todas muito disciplinadas, esperando a hora da visitação.
Crianças, por sinal, são muito interessantes de serem observadas nesses locais – especialmente quando ficam quietinhas escutando as explicações da professora. No Museu Calouste Gulbenkian (também em Lisboa) acompanhei um conjunto de crianças bem pequenas, sentadas ao redor de uma escultura chamada “São Martinho a cavalo partilhando a capa com um mendigo”, do século XVI. Elas ouviam com atenção a professora e eu aprendi junto com elas a respeito desse bispo francês, São Martinho, e seu espírito caritativo.
João Correio Filho indica o Calouste Gulbenkan como visita obrigatória e destaca um quadro de Rembrandt (Retrato de um velho – ou Figura de velho, conforme catálogo do museu) e as jóias de René Lalique como pontos altos. O local não existia no tempo de Pessoa e só foi inaugurado no final dos anos 60. Entre o acervo, eu destacaria também a coleção de obras orientais (da Pérsia, Armênia, Índia) e o mobiliário francês do século XVIII, que me impressionaram bastante. Mas tem muito mais.[ii]
Jardins da Fundação Calouste Gulbenkian.
Na primeira vez que visitei o museu, andava lendo sobre Giacomo Casanova (Eu, Casanova, confesso - romance de Flávio Braga) e fiquei admirado com a sensualidade da arte decorativa francesa (principalmente com os quadros, muito explícitos). Cenário adequado para as aventuras de Casanova, que treinava e vendia moças educadas para os nobres da corte de Luís XV, que as usufruíam durante alguns meses e depois as descartavam. Coisas da alta cultura francesa. Coisas que a gente aprende nos museus - e se diverte.


[i] O livro de John dos Passos talvez seja Portugal: três séculos de expansão e descobrimento (Ed. Íbis, 1970), um relato historiográfico e não um romance. John dos Passos era originário de família das Ilhas dos Açores e admirava as realizações lusitanas do período das Grandes Navegações.
[ii] Calouste Gulbenkian foi um magnata armênio da área petrolífera e grande colecionador de arte. Durante a Segunda Guerra refugiou-se em Portugal e, ao morrer (1955) “legou seus bens aos portugueses”, dando origem à Fundação que leva seu nome.

domingo, 8 de outubro de 2017

Lisboa turística

Estou lendo Lisboa em Pessoa, um roteiro turístico inspirado num texto de Fernando Pessoa e escrito por João Correia Filho (Editora Leya, 2011, 376 p.). Pessoa era um lisboeta entusiasmado por sua cidade e no início da década de 1920 preparou uma sugestão de passeio pela capital portuguesa: Lisboa: o que o turista deve ver. Com base nesse texto (que permaneceu inédito até a década de 1990), o jornalista e fotógrafo brasileiro João Correia Filho preparou este Lisboa em Pessoa, com diversas sugestões de roteiros para bater pernas e se encantar com o mundo lisboeta. Vai ser meu guia na próxima viagem.

Já estive em Lisboa mais de uma vez e confesso que não conheço nem um terço do que “o turista deve ver”. Uma vez jantei no Teatro São Carlos, no Chiado, e tinha a vaga noção de que Fernando Pessoa nascera numa casa das proximidades. Planejara que depois do jantar caminharia no entorno do teatro, procurando a tal casa, mas um doido tentou vender um quadro para minha mulher, ficou nos esperando na porta do restaurante, e tivemos que sair apressados. O garçom nos ajudou a despistar o pintor e fomos quase correndo em direção a Rua Almeida Garret para pegarmos um táxi. A casa do poeta ficou para outra oportunidade.
Voltei ao Chiado outras vezes, mas nunca mais fiz a caminhada em torno do Teatro São Carlos, procurando a casa de Pessoa – a qual, segundo Correia Filho, tem apenas uma pequena placa anunciando que ali nasceu o poeta. A Casa Fernando Pessoa, um centro cultural dedicado ao mestre de “Tabacaria”, fica mais adiante (no bairro Estrela) e dessa vez pretendo visitá-la (Rua Coelho da Rocha, nº. 16).
No itinerário que contempla a visita a Casa Fernando Pessoa, Correia Filho propõe uma longa caminhada, iniciando no Parque Eduardo VII (na frente do qual me hospedei na primeira vez que estive em Lisboa), passando pelo Aqueduto das Águas Livres e chegando até a Basílica Estrela. Uma caminhada e tanto que, ao menos agora, estou disposto a cumprir. No entanto me conheço, sou daqueles turistas que não seguem os roteiros à risca. Às vezes paro num parque e fico fotografando (o que pode acontecer no Parque Eduardo VII ou no Jardim Estrela, outro local do itinerário). Ou então entro numa igreja e divido meu olhar entre as imagens sacras, os frequentadores devotos e as pacientes faxineiras esfregando o chão ou tirando o pó dos altares. Os santos portugueses são belíssimos, muito expressivos, as Nossas Senhoras, encantadoras, que não há como não parar e se esquecer do mundo.

Anoitei o passeio na agenda – Parque Eduardo VII até a Casa Fernando Pessoa –, mas sei que posso me perder no caminho. Se não chegar antes da Casa Fernando Pessoa fechar as portas (às 18 horas), direi a mim mesmo os versos de um de seus famosos heterônimos (Álvaro de Campos): “Nada me prende a nada. / Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo. / [...] / [E] vivo num sonhar irrequieto” (Lisboa revisited, 1926) – e estarei perdoado, quem sabe.